Quinta-feira, 02.04.09

Sento-me na areia molhada e olho o horizonte, com os olhos repletos de emoçao ao recordar-me de cada vivencia ali. Passaram anos até que voltasse ao local, mas agora percebo que o tempo em nada mudou o sentimento que nutro por este local…

O som das ondas, o bater da agua salgada nas rochas, o farol, tudo isto me é familiar. Como e bebo este momento como que vou partir e nao mais voltar…
As gaivotas sobrevoam a agua azul e inquieta, que simultaneamente, apesar do desconcerto das suas ondas, me inspira tranquilidade.
A areia, marcada pelas patinhas dos passaros e pelas rodas do tractor, denunciam que ainda é cedo, muito cedo, e que nao ha ainda mais ninguém naquela infinitude de pedrinhas minusculas e agua marinha.
Uma onda mais teimosa beija-me os pés e recordo-me daquela noite, em que ali mesmo, fizemos amor e nos entregamos as delicias da natureza e da paixao, sem nunca acreditarmos que a vida a dois terminaria, sem nunca sonharmos que aquele momento nao duraria para sempre…
O sol acaricia a lagrima que acaba de rolar pelo meu rosto. é neste momento que recordo como adoravamos vir para este local, sentar-nos, enquanto comiamos um gelado, assistiamos ao por-d-sol e partilhavamos desejos e vontades, sempre como um todo, nunca como dois seres diferentes.
Parece que as ondas me ouvem e sentem a revolta que invade a minha alma, porque tornam-se mais fortes, mais rudes, mais apressadas a tocar-me.
Parece que foi ontem que partiste, mas nao, ja foi ha muito tempo.
No dia em que morreste para mim, mas nao para o Mundo, nao pude despedir-me de ti, aqui, junto ao mar. Mas hoje digo-te, perante as ondas deste mar azul, perante as gaivotas que me sobrevoam, perante a areia que se entranha nos meus pés, hoje digo-te : « estas morto ! ».

Agora vai, parte em paz, nao me martirizes mais com recordaçoes e tristezas. Pego na unica foto que guardei tua, enfio-a num saquinho de seda. Entro na agua, caminho, até encontrar o local certo, e aqui, enterro a tua foto na areia. Eu sei que sera desenterrada pela força da agua, mas para mim estara enterrada. Assim como tu, que estas morto para mim e vivo, muito vivo, para o Mundo.  Este mar que um dia foi nosso, continua a ser teu, continua a ser meu, mas nosso ja nao é…

 

Historia ficticia escrita por mim para a Fabrica de Historias...



publicado por Jo às 12:26 | link do post | comentar | ver comentários (15) | favorito

Sexta-feira, 27.03.09

Acordei na incerteza. Mais um dia… espero lentamente pela morte, a qual desejo que seja rapida. Estou agora com 95 anos. A primeira coisa que faço é olhar para a tua foto. Lembras-te quando dizias nao querer chegar a velhice ? Pois bem, eu fiquei ca. Estamos em 2079 e nao imaginas o que mudou depois da tua partida…

Nos, que nascemos na era em que ainda nao haviam telemoveis e em que os jogos electronicos eram da « Master System » da Sega, nao conseguimos compreender como é que o mundo mudou tanto.
Acordo num mundo estéril, desprovido de humanidade, de sentimento. Acordo num mundo que nao é o meu, num mundo seco de emoçoes.
Nao imaginas, meu amor, como evoluiu a tecnologia. Graças a isso, aos robots, aos computadores, ha cada vez mais desemprego e criminalidade, apesar das varias formas que tentam encontrar para a combater.
Os nossos netos ja nao conduzem carros como os do nosso tempo. Os carros deles sao a agua, mas até isso vai ter que mudar, pois a agua esta cada vez mais escassa.
A nossa vida é controlada. Daqui a bocadinho, quando sair de casa, tenho que passar o indicador num scanner que colocaram a entrada de casa. Assim identificam-me e sabem que sai. Da mesma forma, quando entrar no local que antes chamariamos de centro comercial, terei que deixar « scannear » o meu indicador.
Nas lojas ja nao temos pessoas a atender os nossos pedidos. Ja nao da para manter o contacto social, para dar uma gargalhada com uma funcionaria ou pedir o livro de reclamaçoes a outra. O que queremos comprar é dito a um computador, que fala connosco (sabe la Deus como !) e a encomenda é preparada por maquinas que agarram os nossos bens desejados com umas pegas, como naquelas maquinas onde tantas vezes ganhaste peluches para mim, nas romarias.
Se quiser comprar uma peça de roupa, é so « scannear » o dedo e o computador mostra-nos em primeiro plano, vestidos ou nus, como desejado, e vai mostrando como cada peça de roupa nos ficaria.
Muita gente voltou a cultivar. Nao ha trabalho, logo nao ha dinheiro, e como tal, as pessoas que nao se sentem tentadas a furtar, cultivam os seus alimentos da maneira que podem e criam os seus animais. Esta tarefa nem sempre é facil. O clima esta tao doido que nao imaginas ! Esta tudo virado do avesso…
E eu estou cansada, muito cansada… mas nao posso sequer por término a minha vida, meu amor… Colocaram-nos um chip no cérebro e um computador lança o alerta se nos queremos suicidar (é desta forma também que tentam combater o crime).
Cansada… acabei de acordar mas estou cansada… cansada desta sociedade pobre em ideais e valores. Cansada de viver enclausurada, como se tivesse cometido algum crime, quando o meu unico crime é ainda viver…

Anda-me buscar… leva-me para junto de ti… deixa-me ser feliz de novo…

 

Historia escrita por mim para a Fabrica de Historias.



publicado por Jo às 12:28 | link do post | comentar | ver comentários (10) | favorito

Terça-feira, 10.03.09

Os cabelos negros,compridos e oleosos, o vestido longo e rasgado assustavam quem passava e a via sentada na escada da igreja. Diziam que era uma bruxa, mas havia quem soubesse qual o seu nome e onde um dia vivera…

Para muitas pessoas ela era so mais uma desgraçada que tinha destruido a sua vida. Para algumas ela era uma infeliz vitima do destino.
O seu nome era Ester. A minha avo contava que a Ester fora um dia uma linda criança de caracois negros e mais tarde uma espantosa mulher. Desde pequena trabalhara para ajudar os pais com o alimento dos cinco irmaos mais novos. Era meiga e educada para todas as pessoas da vila. Cresceu agarrada ao cabo da enxada, com maos calejadas, que a primeira coisa que faziam pela madrugada era amassar a massa do pao, mais tarde vendido pela mae de porta em porta.
A minha avo contava que a Ester era cobiçada por tudo quanto era homem mas nao se iludia com nenhum.
Um dia, enquanto conversava com as amigas a porta da igreja, viu um trevo de quatro folhas no chao. Dizia-se na altura, que se se encontrasse um trevo de quatro folhas a frente de uma igreja, se deveria rezar um Pai-nosso e pedir um desejo. Ester pediu o seu desejo, rezou o Pai-nosso, e guardou o trevo por baixo do seu colchao.
Duas semanas mais tarde, novamente em frente a igreja, enquanto conversava com as raparigas da sua idade, ele surgiu, qual principe encantado. Era alto, bem constituido, olhos escuros, cabelo preto, pele morena. Quando sorriu ela perdeu-se naquele sorriso de dentes perfeitamente alinhados. Nao demorou muito até se encontrarem vezes sem conta. Ao inicio em frente a igreja, onde conversavam na presença de mais pessoas. Depois, por tras da igreja, sozinhos, sucumbiam ao amor e a paixao.
 Passaram algumas semanas, até Ester perceber que a sua menstruaçao nao chegava e temeu o pior. Quando contou ao seu amor, ele prometeu leva-la para longe e faze-la feliz, juntamente com a criança gerada por ambos. No entanto, no dia seguinte nao apareceu em frente a igreja. Ester esperou dias a fio, sem sair dali. Nao comia, nao bebia, so chorava. Ao fim de uma semana foi a mae que a arrancou das escadas frias. Quando a jovem contou ao pai o que se passara, este espancou-a. Era uma rameira, indigna da familia que tinha e merecia morrer. Quem a tirou debaixo da ira do pai foi a mae, chorosa, e atirou-a para a rua. Toda rasgada e a escorrer sangue, Ester soube naquele momento que estaria sozinha no mundo, pois ja nem a criança, que o seu ventre carregara horas antes, existia.  
Foi entao que Ester voltou para a frente da igreja. Ali esperava por ele, ali bebia recordaçoes e comia sonhos. Ali sobrevivia.
Se Ester tivesse nascido uns bons anos mais tarde o seu destino poderia ter sido diferente. Assim, foi so mais um martir nas maos de uma sociedade machista.
Quando se ouviu um grito vindo da porta da igreja, naquela manha de primavera, a vila soube. Ester havia morrido. De fome, de sede, de frio, de tristeza? De injustiça, desamparo e humilhaçao por parte do Mundo.
 
 

Historia minha e ficticia para a Fabrica de Historias



publicado por Jo às 14:16 | link do post | comentar | ver comentários (16) | favorito

Este sim, o meu blogue mais que pessoal...
mais sobre mim
posts recentes

Mar Nosso

Mensagem do futuro para o...

Nascida em tempos que ja ...

arquivos

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

mais comentados
15 comentários
comentários recentes
Olá, pessoalmente ficava pelo perfume da Armani......
existem diferenças! mas temos de assegurar que ele...
No plano mental é muito fácil julgar...
bem tenho andado desaparecido mas quando decido ve...
Ricardo, o link so nao é para alguns, mas é por es...
não era mais facil colocar logo aqui o link da nov...
Parabens... O teu blog eh fixe.Eu tbm ja tou cm o ...
E que muitos outros anos se repitam... para sempre...
Querida Jo,Fiquei triste, porque gosto de ir passa...
Adoro o blog
blogs SAPO
subscrever feeds