Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Colocou o resto das roupas no saco, e olhou a sua volta. Deixava agora aquela casa que tinha sido sua durante mais de trinta anos.

Enquanto descia as escadas reparava nos quadros ainda pendurados. O dia do seu casamento. O nascimento do filho mais velho. O batismo da filha mais nova.
Cada um havia seguido a sua vida. E era, quando olhava nos seus olhos, e nos olhos dos netos, que sabia que aquele casamento tinha que ter acontecido e nao havia sido em vao…
 
Quando conheceu Ana e se envolveu com ela, desejou com toda a força ama-la. E amou. Amou como uma amiga, amou por vezes com uma ponta de paixao… mas vontade de a beijar sentiu poucas vezes. Por vezes, depois de uns minutos de sexo, virava-lhe as costas mas sentia-a chorar. Sabia que ela sofria com o seu desprezo, mas nao podia evita-lo. Depois do nascimento dos filhos convenceu-se que essa seria a sua vida. Além disso, herdara a empresa do pai e nao se conseguia imaginar a desonrar o nome da familia. Desde novo que se condenava por ser diferente dos restantes machos da familia, mas so muito mais tarde percebeu que so seria aceite quando aprendesse a aceitar-se a si proprio.
 
Nao foi facil partilhar com os amigos e familia que vivera uma mentira toda a sua vida. Um empresario de sucesso so era um heroi se viajasse muito e fornicasse com tudo quanto é mulher durante essas viagens, traindo a esposa, que em casa tratava dos filhos. No entanto nunca o fez. Nunca a traiu. Trinta anos desonesto para consigo mesmo e para com ela, mas sem nunca permitir que o desejo carnal tomasse conta de si e consumasse a traiçao que por vezes acontecia em pensamento.
 
Chegou a sala e lembrou-se do dia, tres semanas antes, em que contara a Ana o que lhe ia na alma, no coraçao, no sangue. Ela gritou, atirou-lhe com vasos e insultou-o. Disse-lhe que ele era nojento e indecente. Virou costas e saiu de casa. Depois disso so soube  que ela pretendia o divorcio através de um advogado. Os filhos e os amigos também ja sabiam. Ao inicio, nao conseguiam compreender, mas a filha ja lhe ligara na semana anterior e o filho combinara jantar com ele na noite seguinte. Aos poucos tudo faria mais sentido.
 
Sentou-se no sofa. Enquanto perdido em memorias, ouviu passos e voltou-se. Ana olhava-o, com lagrimas nos olhos. Dirigiu-se a ele e abraçou-o.
-         Perdoa-me nunca ter percebido.
-         Perdoa-me ter-te enganado. – respondeu ele.
Ela passou-lhe a mao no rosto.
-         Amaste-me mais do que imaginas… sacrificaste-te… todos estes anos…
Ele baixou a cabeça… sabia que nao era totalmente mentira, mas também sabia que fora a coragem que lhe faltara. A coragem que so conheceu quando se apaixonou pelo Joao.

Ana abraçou-o. Apertou-o com força. Ele retribuiu. Beijou-lhe o rosto, pegou nos seus sacos e saiu. Aos cinquenta e dois anos começava finalmente a viver… a mascara caira…

 

Texto ficticio para a Fabrica de Historias



publicado por Jo às 14:36 | link do post | favorito

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