Quando ela me estendeu aquele envelope amarelo, ja gasto pelo tempo, os meus olhos brilharam de emoçao… sempre esperara por aquela carta, mas esta demorara mais de vinte anos a chegar…
Foi a tremer que a abri, com muito cuidado, para nao rasgar o envelope, quase tao precioso quanto o conteudo.
E quando comecei a le-la, as lagrimas rolaram-me pela face…
« Querida filha,
Depois de tantos anos em silencio resolvi escrever-te. A coragem que me faltava apareceu-me com a doença que apenas me deixa mais uns meses vivo… Sei que jamais terei o teu perdao. Sei que que nao o mereço… mas por favor acredita que durante todos estes anos pensei em ti.
Quando vos abandonei fui um cobarde. Eu sei… queria mais da vida e so muito tarde me apercebi que a tua mae nao era a mulher que eu procurava. Nao consegui agir da maneira certa e fugi.
Agora, nao te conheço. Nao sei como és. Nao sei se seguiste a faculdade, se ja trabalhas ha alguns anos… Talvez até ja sejas casada, eu ja tenha netos, e estes até ja saibam falar… Nao faço ideia do rumo que a tua vida levou… afinal tinhas apenas tres anos quando sai de casa. Sera que ainda te recordas do meu rosto ?
Depois de sair de casa, viajei para o Canada, onde comecei a trabalhar… nao foi facil… o processo de adaptaçao foi complicado mas entretanto conheci uma mulher espantosa, a minha actual esposa, e foi com a sua ajuda que ultrapassei muitas das dificuldades. Hoje temos dois filhos maravilhosos, os teus irmaos. O Joao, mais novo do que tu seis anos, entrou este ano para a universidade. O mais novo, o André, é jogador profissional de hoquéi e estuda num colégio privado. Eles ja sabem da tua existencia e insistem em conhecer-te.
Quando te sentires preparada e quiseres viajar até ao Canada, tens aqui uma grande casa com piscina, onde voces irao gozar muito… Podes ficar o tempo que quiseres, seras acolhida como membro da familia.
Por favor querida filha, considera a possibilidade desta viagem. Lembra-te que o teu querido pai ja nao aguenta mais do que meio ano vivo, e gostaria imenso de te ver.
Com todo o meu amor,
Pai”
Peguei numa folha e numa caneta e ainda a tremer, escrevi:
« Querido Pai,
Durante anos aguardei noticias tuas. Enquanto isso, ia vendo a mae lavada em lagrimas, sem saber se ela chorava por saudades, se por tristeza, se por nao ter dinheiro para pagar as dividas que deixaste. No entanto, o meu coraçao arranjava sempre uma desculpa para a tua ausencia e o teu silencio.
Cresci sem pai, porque a mae nao encontrou nenhum homem espantoso. Alias, acho que nunca procurou e preferiu nao aproveitar as oportunidades que lhe apareceram, talvez com medo de sofrer novamente.
Quando fiz dezasseis anos comecei a trabalhar num restaurante. A mae nao tinha dinheiro suficiente para tudo, e eu queria muito ajuda-la a liquidar as dividas.
Ainda trabalho nesse restaurante… ha oito anos… mas estou agora a terminar o ensino secundario e espero conseguir entrar para o curso de biologia no proximo ano lectivo.
Nao vivo numa casa com piscina… alias a minha casa é um pequeno T1 onde vivo com uma tia. Pois é, ja nao vivo com a mae. Ela faleceu ha tres anos. E é mesmo por essa razao que te respondo a carta que me mandaste, porque o seu ultimo pedido foi que te perdoasse.
Entao aqui vai… Morre em paz, pai. Estas perdoado.
Com amor,
Da tua filha. »