Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

 

Quando ela me estendeu aquele envelope amarelo, ja gasto pelo tempo, os meus olhos brilharam de emoçao… sempre esperara por aquela carta, mas esta demorara mais de vinte anos a chegar…
 
Foi a tremer que a abri, com muito cuidado, para nao rasgar o envelope, quase tao precioso quanto o conteudo.
 
E quando comecei a le-la, as lagrimas rolaram-me pela face…
 
« Querida filha,
 
Depois de tantos anos em silencio resolvi escrever-te. A coragem que me faltava apareceu-me com a doença que apenas me deixa mais uns meses vivo… Sei que jamais terei o teu perdao. Sei que que nao o mereço… mas por favor acredita que durante todos estes anos pensei em ti.
Quando vos abandonei fui um cobarde. Eu sei… queria mais da vida e so muito tarde me apercebi que a tua mae nao era a mulher que eu procurava. Nao consegui agir da maneira certa e fugi.
Agora, nao te conheço. Nao sei como és. Nao sei se seguiste a faculdade, se ja trabalhas ha alguns anos… Talvez até ja sejas casada, eu ja tenha netos, e estes até ja saibam falar… Nao faço ideia do rumo que a tua vida levou… afinal tinhas apenas tres anos quando sai de casa. Sera que ainda te recordas do meu rosto ?
 
Depois de sair de casa, viajei para o Canada, onde comecei a trabalhar… nao foi facil… o processo de adaptaçao foi complicado mas entretanto conheci uma mulher espantosa, a minha actual esposa, e foi com a sua ajuda que ultrapassei muitas das dificuldades. Hoje temos dois filhos maravilhosos, os teus irmaos. O Joao, mais novo do que tu seis anos, entrou este ano para a universidade. O mais novo, o André, é jogador profissional de hoquéi e estuda num colégio privado. Eles ja sabem da tua existencia e insistem em conhecer-te.
 
Quando te sentires preparada e quiseres viajar até ao Canada, tens aqui uma grande casa com piscina, onde voces irao gozar muito… Podes ficar o tempo que quiseres, seras acolhida como membro da familia.
 
Por favor querida filha, considera a possibilidade desta viagem. Lembra-te que o teu querido pai ja nao aguenta mais do que meio ano vivo, e gostaria imenso de te ver.
 
Com todo o meu amor,
 
Pai”
 
 
 
Peguei numa folha e numa caneta e ainda a tremer, escrevi:
 
« Querido Pai,
 
Durante anos aguardei noticias tuas. Enquanto isso, ia vendo a mae lavada em lagrimas, sem saber se ela chorava por saudades, se por tristeza, se por nao ter dinheiro para pagar as dividas que deixaste. No entanto, o meu coraçao arranjava sempre uma desculpa para a tua ausencia e o teu silencio.
 
Cresci sem pai, porque a mae nao encontrou nenhum homem espantoso. Alias, acho que nunca procurou e preferiu nao aproveitar as oportunidades que lhe apareceram, talvez com medo de sofrer novamente.
Quando fiz dezasseis anos comecei a trabalhar num restaurante. A mae nao tinha dinheiro suficiente para tudo, e eu queria muito ajuda-la a liquidar as dividas.
Ainda trabalho nesse restaurante… ha oito anos… mas estou agora a terminar o ensino secundario e espero conseguir entrar para o curso de biologia no proximo ano lectivo.
 
Nao vivo numa casa com piscina… alias a minha casa é um pequeno T1 onde vivo com uma tia. Pois é, ja nao vivo com a mae. Ela faleceu ha tres anos. E é mesmo por essa razao que te respondo a carta que me mandaste, porque o seu ultimo pedido foi que te perdoasse.
 
Entao aqui vai… Morre em paz, pai. Estas perdoado.
 
Com amor,
 
Da tua filha. »
 
historia ficticia para a fabrica de historias


publicado por Jo às 15:08 | link do post | favorito

De Mário a 14 de Janeiro de 2009 às 12:45
A história está muito boa babe... És a maior :)


De Jo a 14 de Janeiro de 2009 às 13:03
Vindo de ti, critico acima de tudo,sabe mm bem :) :)
és maior que eu corazon ;)


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