Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Quando o telefone tocou nada fazia adivinhar o que eu iria ouvir. Deixei-me cair no sofa, com dificuldade em respirar. A minha cabeça começou a rodar e eu senti nauseas. Fui a correr vomitar, e as lagrimas rolaram. Vesti o casaco e corri para a garagem.

A caminho, as palavras do Ricardo borbulhavam na minha memoria, e eu so queria chegar a tempo. O tempo… algo mais precioso do que conseguimos aperceber-nos na correria diaria das nossas vidas.
Quando cheguei ao hospital, entrei no serviço de urgencias, vesti uma bata, e preparei-me para entrar no bloco operatorio. Uma mao agarrou-me.
-         Dra. Luisa, nao va… aguarde pelo Dr. Ricardo.
Soltei-me e nao lhe dei ouvidos. Entrei no bloco operatorio. Ele estava ali, deitado naquela maca, banhado em sangue. Aproximei-me e mais uma vez o sistema nervoso mexeu com a minha capacidade mental de encarar friamente o que estava a ver. Acariciei-lhe o rosto sem expressao, e pela primeira vez na minha vida, rezei. Ali estava o amor da minha vida, o meu companheiro, a pessoa mais meiga e solidaria que alguma vez havia conhecido, o médico mais competente, o filho mais carinhoso. Senti-me desfalecer, até sentir-me ser arrastada para o corredor. Senti molharem-me o rosto e acordei, quase que certa de que nao passava de um pesadelo. Estava enganada.
-         Luisa… eu sinto muito…
-         O que aconteceu ? – ja nao conseguia evitar o pranto. As lagrimas eram agora uma corrente de agua limpida que me escorria pelo rosto. Eu sabia que nao havia nada a fazer, mas nao queria ouvi-lo.
-         Foi um acidente. Tens que ser muito forte.
-         Deixa-te de merdas e diz-me por favor quais sao as possibilidades do Joao sobreviver.
-         Luisa, é morte cerebral… - e ao dizer isto, o Ricardo sempre tao forte, tremia como varas verdes.
Nao respondi. Deixei-me desfalecer de novo.
Quando voltei a mim, o Ricardo ainda estava ao meu lado.
-         Desculpa o que vou falar contigo, mas nao ha tempo a perder.
-         Eu quero saber como foi o acidente. Tudo.
-         Calma… um condutor embriagado espatifou-se literalmente contra o carro do Joao.
A raiva apoderou-se de mim.
-         Morreu ? – perguntei.
-         É sobre isso que precisamos falar. – agarrou-me numa mao. – Luisa, esse homem sofre de cardiomiopatia. Depois deste acidente, ficou muito mal. Ja nao ha esperança para o Joao, e tu sabes a sua posiçao sobre a doaçao de orgaos.
Retirei a minha mao, como que para acentuar o meu desagrado.
-         Tu estas a sugerir que o Joao ajude a salvar a vida de quem o matou ? Nunca !
-         Calma Luisa ! Tenta pensar !
-         Tento pensar ? O Joao era teu amigo, por amor de Deus ! Cresceram juntos ! Tu eras amigo dele !
-         E sou, e serei sempre ! Mas acima de tudo sou médico, tu és médica, o nosso dever é salvar vidas, sejam estas de quem forem.
-         Eu sou médica, mas acima de tudo tenho sentimentos, sou humana !
-         Se és humana, entao saberas o que fazer Luisa.
Entrei novamente no bloco operatorio e abracei o corpo vermelho que jazia naquela maca. Lembrei-me das inumeras conversas que haviamos tido sobre doaçao de orgaos. Sobre a sua posiçao em relaçao a isso. Sobre a promessa que me havia obrigado fazer de que doaria os seus orgaos caso ele falecesse antes de mim. Mas eu nao podia. Nao podia deixar que se salvasse a vida daquele condutor bebedo que acabou com a nossa vida… Nao podia !
Quando me preparava para ir a casa, o Ricardo voltou e antes que eu saisse, apelou :
-         Luisa, pondera por favor… nao ha tempo a perder… aquele homem nao pode perder mais tempo…
Tempo… se eu soubesse naquela manha que nao iria ter tempo de me despedir do Joao… se eu soubesse no dia anterior, teria preparado a sua refeiçao preferida em vez de lhe pedir para nos fazer uma sopa. Teria dormido abraçada a ele, em vez de ficar deitada no sofa a ler… se eu soubesse que o tempo nao espera, e nao da segundas oportunidades… se eu soubesse… nao teria desperdiçado um minuto sem lhe demonstrar o quanto o amava.
Voltei-lhe as costas. A saida pude ver uma esposa desesperada tal como eu, mas agarrada a duas crianças. Nao quis reparar nas crianças, nao quis sentir pena. Nao, eu estava naquela situaçao por culpa do familiar deles.
Em casa, deixei-me adormecer no sofa e sonhei com o Joao. A conversa sobre a doaçao de orgaos foi o tema e acordei sufocada e lavada em lagrimas. Tomei um duche. Fui para o hospital e despedi-me do meu amor… Assinei um papel e voltei para casa.
 
Passaram seis meses. Sinto a tua falta Joao… hoje mais do que ontem… penso em ti constantemente. E hoje, nesta vespera de Natal, sei o que vou fazer.
Visto o casaco e entro no carro. O destino é a casa de quem ficou com o teu coraçao, essa parte de ti que ainda vive…
Estaciono em frente a casa. Vejo-o a entrar cheio de embrulhos e duas crianças a gritarem de alegria. Ele nao me ve. Mas ele tem um pedaço de ti, meu amor…
Deixo-me chorar, sentada no carro gelado e vazio de ti. A chuva começa a cair, e com ela a certeza de que tu nao mudaste o mundo, nao salvaste a humanidade, mas mudaste a vida de um homem e da sua familia, e mudaste a minha… fizeste-me perceber que esta vida nao para, que o tempo nao perdoa, que é escasso para desperdiça-lo com magoas… e fizeste-me entender que esta vida é dar sem esperar receber, perdendo por vezes, como foi o nosso caso… seras sempre o meu heroi…
 
(historia ficticia criada por moi, para a fabrica de historias)
 

Ps… perdoem a falta de acentuaçao ;)



publicado por Jo às 11:16 | link do post | favorito

De Mário a 3 de Dezembro de 2008 às 21:47
Já ouvi alguém descrever este tipo de sentimentos inseridos numa realidade diferente. Sem adornos literários, é certo, mas com a mesma intensidade de emoção. Por perceber em quem pensaste, esta história arrepia-me a dobrar.

És a maior. Já te disse? Beijinho.


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